Nos passos do "Potemkin", o grande premiado da televisão

Chega a ser cruel para quem busca a informação audiovisual e procura se atualizar com o que se faz de novo no mundo. O porre de imagens que caracteriza cada vez mais o FestRio faz com que se ao menos os longa-metragens, em competição, possam ser vistos, ou na sala Glauber Rocha ou nos cinemas da cidade, nos quais são reprisados, em relação aos vídeos e programas de televisão poucos conseguem acompanhar. Afinal, este ano foram 365 trabalhos nacionais e 220 estrangeiros que Hamilton Costa Pinto e sua equipe selecionaram entre mais de 700 inscritos. No final, mais de 100 horas de vídeo, projetadas em uma centena de aparelhos e três imensos telões no 2º andar do centro de convenções do Hotel Nacional, com entrada gratuita - e sempre público numeroso. Mas impossível, mesmo aos mais interessados, acompanhar sequer 30% da programação - tanto a competitiva como a informativa, distribuída em blocos de 30 a 120 minutos, exibidos simultaneamente a partir das 14 horas. xxx Dois júris oficiais - um para a escolha do melhor programa de televisão, presidido por Walter Salles Jr., outro para a escolha do melhor vídeo, presidido por Marcelo Tas - trabalharam bastante para chegar aos resultados finais. Ao menos o melhor programa de tv teve chance de ser visto por muita gente que se ligou nas dicas dos jornais e no boca-a-boca da recomendação: desde o início "Steps", que o polonês Zbigniew Rybczysnki, radicado nos EUA, realizou sobre as imagens de "O Encouraçado Potenkim" (1925, de Sergei Eiseinstein) foi o favorito. Já premiado com um Oscar em curta-metragem, Zbigniew faz neste seu programa de tv uma viagem de personagens do colorido e atual mundo americano, dentro do universo em branco e preto do "Encouraçado Potenkim" - com humor e inventividade. Tranqüilamente, levou o Tucano de Ouro na categoria de melhor programa de televisão. xxx Na categoria de melhor programa documentário, o júri dividiu a premiação: como ex-aecquo premiou "Steve Reich: A New Musical Language", da inglesa Mary Jane Walsh, focalizando o trabalho deste notável músico minimalista, com poucos discos editados no Brasil e ainda desconhecido do público. O outro programa documentário premiado foi "EI Santo Padre Y La Glória", da Cubana Estela Bravo. "Alpári Tortênet", da húngara Sonia el Eini, ganhou o prêmio na categoria de programa de tv de ficção. O polonês Zbigniew Rybczynski, além do Tucano de Ouro por "Steps", emplacou mais uma premiação como "melhor programa espetáculo": "Imagine". O Brasil conquistou um prêmio especial do júri, dado a Nelson Pereira dos Santos pelo programa "Drôlo de Guerre de Queneau" (A Divertida Guerra de Queneau), no qual o cineasta de "Vidas Secas" faz uma leitura pessoal do jornal de Raymond Queneau, que circulou entre 1933/1940 em Paris, num diálogo de expressão literária com a cinematográfica. Co-produzido pela Bibliotheque Publique d'Information do Centro Georges Pompidou, este programa de 26 minutos, é inédito no Brasil. xxx Se em programas de televisão, o Brasil só teve o prêmio especial para Nelson Pereira dos Santos, na categoria de vídeo fomos melhor classificados. O Tucano de Ouro foi para dupla Renato Barbieri e Clóvis Aidar por "Du Vídeo", um interessante ensaio crítico sobre o lugar que a televisão ocupa em nossos dias. O melhor musical foi "Uatki", que Eder Santos realizou sobre o inventivo grupo musical mineiro - numa versão livre do bolero de Ravel, com imagens em meio a peixes, adornos de aquários e o bailado de Haroldo Alves, com o Uatki mostrando o seu trabalho. Polêmico, criativo, Arthur Omar, ganhou também o seu Tucano na categoria Experimental: "O Nervo de Prata", sobre a obra do escultor Tunga e que comentamos em matéria publicada no dia 26 último. Como vídeo experimental também foi premiado "Montenevers et mer de Clace", dos franceses Robert Cahen e Stephane Huter, um trabalho puramente visual sobre uma viagem turística e bucólica de trem durante o verão, partindo de Montenevers até o Mar de Gelo, nos Alpes franceses. Na categoria documentário, o vídeo vencedor foi também trabalho da França - país que está avançadíssimo, aliás, nesta área: "Travailler a Domicile", montagem de três curtas sobre os trabalhadores que fazem de sua casa a oficina-loja - realização de François Caillat, Dominique Gross e Anna-Cecilia Kendall. Uma espécie de documentário sobre as indústrias de fundo-de-quintal na França, que faria o Luís Groff, idealizador deste programa no Paraná, urrar de emoção, como bom francofilo que ele é desde os anos 50, quando morou em Paris. Finalmente, o prêmio especial do júri na categoria de vídeo foi para "Ropha" no qual o americano Daniel Risenfeld mostrou os conflitos da África do Sul. Narrado por Sidney Poitier, o vídeo de 58 minutos faz um paralelo entre a situação de policiais negros obrigados a lutar contra seus irmãos de cor e a peça do mesmo nome, que mostra a relação de um policial negro com seu filho, um ativista anti-apartheid. A quantidade de vídeos e programas de tv reunidos no FestRio é tão grande que mesmo em rápidos registros seria impossível, na limitação jornalística, sintetizar sequer os trabalhos mais importantes. Em sua dimensão, esta mostra que Hamilton Costa Pinto organiza desde 1984 é hoje a maior do mundo - e, se continuar a crescer, tende inclusive a ganhar autonomia. Ao menos uma forma de ficar com uma extensão extra Festiva, de forma que o público não perca os maravilhosos trabalhos reunidos em suas sessões - e que são absolutamente impossíveis de serem acompanhados simultaneamente. Credibilidade. Esta é a palavra que define a razão pela qual, de ano para ano, Hamilton reúne cada vez maior e melhor número de vídeos e programas de televisão, vindos de diferentes partes do mundo. Pessoalmente controlando as exibições, evitando qualquer risco de pirataria do excelente material apresentado - e que por isto mesmo é devolvido imediatamente após o Festival aos seus realizadores - o setor de tv e vídeo do FestRio tem hoje um interesse tão grande quanto os filmes em competição. Mais do que nunca, ouve-se reclamações pelo excesso de qualidade e simultaneidade das opções. Como dizia uma bela jovem, na dúvida de qual programa assistir - Pela primeira vez na vida gostaria de ser um E.T., com olhos-polvo, para entrar nas três salas simultaneamente!
Texto de Aramis Millarch, publicado originalmente em:
Estado do Paraná
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02/12/1987